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11.9.08

do morro [discurso aos medíocres]

e do alto do morro ele gritou. como se todas as energias daquele gritar transformassem os sonhos em realidade, e as injustiças seriam adulteradas em forma de justiça.

"lá, bem prá lá pro lado das outras vidas. aquelas que serão mais agradáveis. que serão mais loucas, mais intensas. receberemos os medíocres de braços abertos. fiquem à vontade nesse mundo de hipocrisia e desigualdade. onde quem pode mais é aquele que tem dinheiro. fodam-se os medíocres, que se danem os homens de pouco caráter, que tiram do cidadão o direito de deixar suas vidas menos pesadas, dolorosas...

toda noite ele gritava isso. ficou rouco, é claro, muitas vezes. e o discurso era imenso.

após acabado o discurso que executava [quase] todos os dias, aproveitava para organizar as operações do dia seguinte. no seu negócio lucrativo, mas não para ele. mas sim, para os homens de colarinho branco. aqueles mesmo que entre ano e outro exploram as mazelas da sociedade em próprio benefício, e de seus pares.


seu negócio era sinistro. ele sabia disso.
trabalhar no tráfico tem suas conseqüências.

o morro era o do cantagalo. terra de bezerra da silva.

salve bezerra!

27.8.08

manifesto[do otário]sobre trabalho

o otário pegou um texto para uma revista mensal da editora agosto[de deus]. ele elaborou a pauta primeiro. um parceiro havia lhe colocado no fechamento daquela edição. gente fina, lutou para conseguir um trocado maior para o otário. depois de aprovada a pauta sobre os jogos olímpicos da hipocrisia para a revista, daquelas que são criadas com o intuito de vender anúncios, mas que são empurradas como a salvação em termos de grade de programação.

uma pauta enviada. e a graça alcançada pelo otário. 30% de aumento. a pauta bem feitinha deve ter chamado a atenção de quem comanda a grana. comoveu o pessoal da editora agosto[de deus]. o otário então fez tudo bonitinho. ficou contente quando aprovaram uma sub em que explicava a situação dos monges que apanhavam dos comandantes do país vermelho. comunistas. tudo foi enviado rapidinho, no prazo estipulado. o intermediário foi o amigo, que saiu de cena.

ficou então a negociação para receber o cascalho pela sua dedicação, que o otário admitiu não ter sido tão complicada manter. foi até um mel na chupeta. como o amigo havia prevenido, quando o otário falou sobre suas inseguranças e a possibilidade do trabalho ser infinito. a lei da mais valia é constante, ainda mais na editora agosto[de deus], com seus programas de trainee, iludindo e inutilizando para o bem uma geração de pessoas que poderiam ajudar mais os seus iguais.

receber o que lhe era de direito não foi tão fácil, como havia sido nas outras vezes que gastou tempo trabalhando por lá. da primeira vez que ligou para a secretina hipócrita da editora agosto[de deus] sabia que tinha ultrapassado o prazo. ela perguntou ao otário se gostaria que ela conversasse com o rh da editora agosto[de deus] para 'dar um jeitinho' na situação. o otário, como todo bom otário, disse que não. que "sabia que estava fora da regra do sistema deles".

afinal, descobrir que poderia receber o levado pelo préstimo de seu trabalho somente 53 DIAS [1 mês e 21 dias, ou sete semanas] após o término dele não seria o problema. o otário então foi até a sede da editora agosto[de deus]. assinou os papéis e confirmou que só receberia o levado no dia estipulado, ao término dos 53 DIAS. o otário acreditou e se programou em cima disso. passados os 53 DIAS nada do cascalho cair na conta. o dinheiro acabando, e nada da grana cair.

foi então que o otário resolveu ligar para a secretina, o diálogo foi o que se segue:
— alô. quem fala? sou o otário, secretina. fiz um freela para a revista da editora agosto[de deus] e, pelo que anotei no dia que assinei os papéis era para ter caído hoje, e nada.
— ah, otário. sei. me passa o seu cpf. tá. agora passa um telefone, eu te ligo. obrigada.
tu, tu, tu, tu, tu...

o dia se passou, o otário gastou o dia preocupado, sem aproveitar o tempo livre conquistado após 18 dias seguido cobrindo da redação [da outra marginal] os jogos olímpicos da hipocrisia. precisava do dinheiro para comer. não que estivesse passando fome. mas gostaria de curtir aqueles dois dias. dias de gozo e tesão pelo sol. queria registrar o céu.

no dia seguinte, logo cedo, 9h47:
— alô, secretina. sou o otário de novo. tô ligando para...
— nossa, otário. eu nem te liguei ontem, né? tava maior correria aqui.
— sei. e...
— olha, eu tava olhando aqui com o rh e o seu pagamento está previsto para daqui 15 DIAS. a minha diretora só aprovou a conta depois do prazo e...
— e eu vou receber o meu levado só depois de 69 DIAS que eu entreguei tudo? pôxa, se eu soubesse que meu pagamento não iria cair nesse dia, não teria ido ai na sede da editora agosto[de deus] no meio daquela chuvarada toda que caiu em são paulo.
— é mas...
— quando eu estava fora do prazo, eu mesmo assumi que tudo bem, que não poderia ter ido mesmo assinar os papéis por conta de uma gripe, e que não havia problema algum receber 53 DIAS depois. mas me programei pra isso. e agora você me diz que sua diretora não assinou...
— mas é coisa do sistema aqui. não vai dar pra mudar. mas eu vou mandar um emeio pro rh agora, perguntando sobre o que pode ser feito e te dou um retorno.
— tudo bem. mas por favor, teria como REALMENTE me retornar, porque eu preciso me organizar, descobrir de onde eu posso tirar dinheiro? sou otário, mas não sou burro.
— pode deixar que eu retorno. tchau
— tchau.

passadas 2 HORAS:
— alô, otário?
— é ele.
— é a secretina, tudo bem? acabei de receber um emeio agora do rh e eles anteciparam o pagamento para o dia 5.
— tudo bem.
— então tudo bem.
tu, tu, tu, tu, tu...

26.6.08

profundamente

ontem acordou com saudade. não sabia exatamente dizer de onde vinha essa saudade. confessou-nos. mas ela apertou o peito o dia inteiro. tentou então se entregar aos trabalhos, até conseguiu finalizá-los. mas o aperto não passou. aumentou conforme palavras foram saindo da sua boca. com nexo, mas talvez desconexo do contexto atual. o contexto da saudade.

à noite. quando já se achava intocável. um velho ator o fez lembrar da saudade. já tinha detectado o vazio durante o banho. um vazio que vem acompanhando seu caminho desde que ela partiu. de supetão. paulo autran não aliviou a paulada. ainda jovem, recitou um poema de manuel bandeira, mas parecia que as palavras foram apenas aos seus ouvidos. mais ninguém escutou...

(...)

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.*

ainda antes do poema terminar, o coração já pulsava mais forte. tentava bombear o que naquele momento parecia ter sumido. o aperto no coração virou estrangulamento da alma.

foi difícil não chorar... pouco

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[*]trecho do poema 'profundamente', do
poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro manuel bandeira. poema publicado em 1930 no livro intitulado Libertinagem.

27.3.08

[longa] estrada da ]liberdade[

tinha 19 anos. queria manter a postura, não era medroso. a fita tava quase levantada. faltava um mês. ele resolveu entrar na barca e as coisas começaram a ficar 'moiadas'. sua função era simples, ele aceitou. foi agir junto com o primo e mais três comparsas. foi a brecha que o sistema esperava. era até que de boa. jogava bola e fugia da mãe. um monstro que tentava lhe obrigar a estudar na base da mangueirada. não dava para os estudos. e olha que na sua rua eram três escolas.

com a vítima já no cativeiro, a ação começou a degringolar. a queda de um balão na frente da residência escolhida foi o empurrãozinho pro jogo de dominó. um maluco acabou assassinado na disputa pelos restos do balão. coisa típica na periferia de uma cidade grande como são paulo. na confusão, ele mesmo sugeriu que liberassem a vítima, uma mulher. rica, segundo as informações levantadas, por bem mais de um mês, pelo observador, que levaria sua parte dos 250 mil reais exigidos.

a coragem se transformou em medo. a mulher já estava solta. a maioria dos funcionários da ação fugiu, com medo de cair na tranca-dura. ele não. ficou em casa, vivendo a vida normal. até que o primeiro miliante foi encontrado pela polícia e a casa caiu. o mesmo que o chamou de medroso começou o processo de dedurar todos. ele caiu por conta de uma foto na carteira de reservista ["nunca gostei de tirar fotos, mas elas foram parar no fantástico e os carai."]. o x-9 foi com a polícia na sua casa apontá-lo. "eu não tava em casa. tá moiado pra ele agora. trombei agora com ele, mano. quando todo mundo sair, vamo conversar."

a setença do juiz foi implacável. mesmo a vítima não tendo reconhecido ele, o juiz sentenciou o
bando: 12 anos de prisão. foi parar na vida dura do sistema prisional brasileiro. passou fome, jogou bola, estudou, pensou na vida. e perdeu a mulher. desde então decidiu ficar sozinho e não gosta de colocar os nomes dos parentes na lista de visitas. tem certeza de que está sozinho na vida.

aos 25 anos, cumpriu seis anos e três meses da pena. após passar pela tranca-dura, vive em regime semi-aberto na penitenciária de valparaíso, cidade 572 quilômetros distante da capital. noroeste paulista. não é um paraíso, mas pelo menos lá não toma tapa na cara de agente todo dia. joga uma bola, muito de vez em quando, porque não quer arrumar para a cabeça. jogar bola pra ele tem de ser sério. é diversão, mas é coisa séria. parceiro gritando pra tocar a bola, pra deixar de ser fominha, não. ele não suporta.

no última páscoa teve a sua primeira 'saidinha'. claro, foi pra capital. passeou pelas suas quebradas. ficou bastante em casa. saia só depois das 23h e "não dava vontade de parar de andar. cidade é muito grande e era só isso que pensava, em andar, mesmo que sem rumo." domingo bateu uma depressão. tinha de voltar no dia seguinte. chegar antes das 17h em valparaíso.

se não chegasse, teria uma punição. não poderia usar da saidinha do dia das mães. o trânsito embaçou na ida da zona leste até o terminal rodoviário da barra funda. perdeu a condução da empresa capitalista e dominadora que lhe enfiara a faca em quase 100 mangos. monopolista, a empresa não tem dó. o preço é esse e acabou. aproveita que ainda tá barato pra você. teve de voltar no dia seguinte e perdeu o direito da saidinha do dias das mães.

como só sairia agora no dia dos pais, já sabia quanto tempo demoraria: "três meses e pouco, ó". estava desanimado, mas acreditava muito na liberdade condicional que poderá sair daqui um ano e oito meses. "setembro de 2009. só não sai isso antes porque a execução é muito demorada naquela região. o estado deveria enjaular as pessoas, mas lhe dar as condições mínimas. a água é racionada, a comida é menos de 300 gramas. isso ninguém mostra."

é verdade, o estado só se preocupa com números. não existe amor, nada disso. agente penitenciário bate pesado, dá tapa na cara de bandido, esculacha. "mas na hora que dá uma viradinha, vira tudo pai de família, por favor, não me bate, não... " no ônibus apertado, diz que só se envolveu com seqüestro e assalto. "tráfico eu não gosto não. e também não gosto que as pessoas usem drogas. a minha é o cigarro." a mãe usava drogas e lhe batia. também puxou cadeia, mas ele nem quer mais saber dela.

reclamou do café ruim da rodoviária. o pior de sua vida. tomou dois. deu um jeito e conseguiu dar alguns tragos no banheiro do baú. não incomodou os passageiros. conforme as cidades ao longo da marechal rondon foram ficando para trás, parecia que as energias libertárias iam se esvaindo. ficando no asfalto. quilômetros de asfalto e muito verde. cidades obscuras e máquinas que soltam fumaça. espetáculo lindo, fotográfico. porém, melancólico.

o sono já tinha ido embora. a expectativa ia ficando maior e sonho de voltar à liberdade ficavam evidentes. contrastando com o nó na barriga que os quilômetros seguintes traziam. a cada parada, um pouco mais de aflição. como já estava atrasado, iria curtir mais um pouco na cidade, pequena. voltaria , "tipo, cinco e meia pro presídio. " por isso talvez a melancolia não foi máxima.

sua cidade chegou, pegou sua sacola. tinha um parceiro e resolveram ficar na cidade juntos. esperou a mala, mas antes colocou sobre a camiseta de seu time, uma blusa. a partir daquilo, a contagem regressiva iria acelerar. seu peito apertaria mais uma vez. a liberdade voltaria mesmo a ser conto, apenas sonho... agora, ele seria de novo só do sistema prisional. como um monstro que engole e regurgita as pessoas como bonecos. mas tudo isso já ficou pra trás, na rodovia.

[baseado em fatos reais]

23.8.07

chão de lajota, cigarro e os quadris

ela parecia um homem. cabelo bem curtinho, no estilo militar. sentou-se no banco azul da rodoviária enquanto esperava. ansiosa. pegou o maço de cigarros, caixinha. puxou aquele cilindro de nicotina e outra substâncias tóxicas. acendeu. deu uma tragada profunda.

aquela dose lhe acalmou os nervos. estava tensa antes. agora não mais. praguejou contra o faxineiro que tentava varrer o chão liso de lajotas. frio e reluzente sob luzes laterais. a vassoura correu entre as duas mochilas da mulher de cabelos curtos.

o faxineiro não respondeu, não deu atenção, às suas expressionistas reclamações. era tarde. fim de expediente. ele pensou na sobremesa de outrora, enquanto a mulher ficou ali curtindo seu cilindro de veneno. curtiu a brisa do cigarro de novo. parecia calma àquela hora.

ela olhou em direção da plataforma e observou a paisagem de um casal absorto. por um momento a menina alta do casal lhe pareceu familiar. olhou de novo. sentiu o andar da garota. reconheceu certa intimidade com aqueles quadris.

o casal desapareceu entre seres ansiosos para o embarque. e acompanhantes tristes, e relaxados pela sensação de dever cumprido. ela então olhou para o cigarro, que quase lhe queimava os dedos. as cinzas já prontas para irem ao chão. limpo pelo faxineiro.

foi quando respirou fundo, pensando no caminhar da garota. já haviam estado juntas. já tiveram oportunidade de trocarem mais que poucas e vazias palavras. seu ônibus havia chegado, afinal. deixou para trás as cinzas, sob o chão reluzente. bem encerado.

depois daquilo, daquele observar, tinha certeza que jamais voltaria a vê-la. sentiria saudades da garota. teria de viver com aquilo para sempre. cravado no coração navegante... fechou então seus olhos e pensou em nunca mais voltar.

por[emiliano cienfuegos]

início de outro dia do ano de 2007

20.1.07

fábrica de falácias

ele chegou meio apreensivo. sabia que não era a sua praia. no meio daqueles corpos esculturais, estilos e manias das mais variadas, ele pode ter se sentido menor. coisa que não era. muito pelo contrário. sua superioridade era aparente. as mais bonitas logo atraíram sua atenção. ou melhor, voltaram suas atenções para ele. "um teste diferente", pensaram elas.

os bonitos, todos vestidos com a marca do momento, mas querendo fazer o estilo maloqueiro. eles gostam disso. mesmo com a ostentação, em alguns momentos, como aquele, tinham a intenção de passar por humildes. isso eles não eram. não mesmo. por isso soava falso. não era legítimo. não tinham a ver com a realidade que os clientes buscavam.

mas o qual realidade buscavam? é aquela onde uma trilha sonora encaixa bem com personagem. em grande parte fazendo papel de imbecil, para que o produto [a verdadeira estrela] não seja visto em segundo plano. o produto é maior que o personagem, por mais que quem execute a função de personagem tenha talento. uma musiquinha tosca bem encaixada, e será um sucesso na mídia.

aquele teste foi mesmo diferente. porque quando notou realmente o espírito da coisa, ele se revoltou. a beleza plástica ao se redor não foi fator inibidor para a sua revolta. quando chamado pelo serviçal do diretor, o popular 'aspone', ficou injuriado com o tratamento. em menos de 15 segundos, delirou várias maneiras de eliminar aquela figura da terra.

com um soco na barriga, talvez. mas um soco sutil, sem alarde. na surdina. o mesmo soco que todos os dias pessoas dubem levam em seus estômagos e nem percebem. um soco no estômago covarde. espalhado pelos lugares mais inusitados, elaborado com a melhor trilha sonora, o melhor diretor de arte, a melhor fotografia, a melhor piada, a melhor brincadeira preconceituosa... enfim, o melhor produto [e que se dane os verdadeiros efeitos daquele produto sobre seus usuários].

um salve à publicidade e às idéias geniais dos marqueteiros.
obrigado por existirem. a humanidade realmente precisa de vocês.

10.12.06

na rabeira da cidade

estava longe de casa. a bola amarela rolava na sua frente. chutava aquele passatempo, como quem tocava a vida em frente. bem na frente. na mão direita, por baixo da camiseta pólo amarela, surrada, provavelmente doada por alma caridosa, leandro segurava um saquinho. aspirava de vez em quando. olhando para os lados.

tinha 12 anos e queria chegar na praça da sé, mas logo mudou o destino para a praça da árvore. não sabia ao certo o que queria. estava confuso. provavelmente entorpecido pelas sensações causadas pela mais acalentadora das drogas entre os meninos de rua. mas disse que não morava na rua. mas não sabia também o que iria fazer na praça da árvore.

escondeu o saquinho dentro da camiseta. em seu ventre. entrou no ônibus que levava ao centro, e também à praça da árvore. a velhinha, ingênua, acostumada com um bairro nobre, ainda o alertou sobre sua bola, esquecida na calçada. deu de ombros. a bola amarela foi apenas sua acompanhante durante a madrugada. chutando, chutando... entre aspiradas.

passou por baixo da catraca sem pedir ao cobrador, que num lampejo nem pensou no dinheiro do patrão. era domingão. o moleque precisava dar uma volta. mesmo que sem destino. dentro do ônibus, pediu discretamente um trocado a uma senhora que subiu três pontos na frente. ela disse que não tinha. estava indo para a ingreja. mas e o dizimo?

a igreja precisa muito mais do dizimo que aquele menino. afinal, o próximo bazar para angariar fundos para a paróquia estava próximo. muito mais importante que aplacar a fome daquele garoto, que perdeu a 'carona' no busão de volta para casa. apenas o irmão, alex, "conseguiu pegar rabeira". leandro acabou caindo.

já estava no centro. rápido assim. bem mais rápido que imaginava. disse que iria para a sé "arrumar um dinheiro". idéia louca. domingão não é dia de pedir dinheiro na sé. menos movimento, talvez. um saco de cola custava 5 reais. mentiu. concordou que era dinheiro demais e diminuiu para R$ 1,00. "uma bolona assim, ó", fez com a mão.

estava sonado. cheirou dois sacos na noite anterior. ainda confuso. contou que gostava da cola pela sensação. era "quase um viciado", porque quando estava em casa sentia falta, às vezes. eram prazerosas as tais visões. falou também que quando cheirava, olhava para as pessoas e elas derretiam. "se olho para aquele cara, aos poucos, ele vai mudando".

em casa, o cara aparece de novo na sua cabeça, ele contou bem baixinho. de repente, aparecia. como uma visão, aparecia na mente. em realce. se encantou com a movimentação da feira, na rua paralela por onde passava o busão. mudou de caminho, apertou a parada. desceu com a meta de comer alguma coisa e pedir dinheiro entre a elite, freqüente ali.

na feira, andam entre os humildes. fazem caridade e lavam suas almas. tiram um pouco do peso das costas, afinal, estão ajudando um pobre moleque de rua. faz bem pro ego, é como se ganhassem o dia. quando chegam em casa, com a mesa farta e filhos ao redor, já nem se lembram mais do menino carente. que segue seu caminho clandestino. na fé, negô.